Como a engenharia revolucionou a forma de viver o futebol

Como a engenharia revolucionou a forma de viver o futebol

O ano era 1930,  o mundo recebia a primeira Copa do Mundo de Futebol Masculino. Treze seleções se enfrentaram em solo uruguaio, e a equipe da casa conquistou o título em 30 de julho, no hoje emblemático Estádio Centenário, ao vencer a Argentina por 4 a 2.

Mas como o mundo soube disso? Como a notícia chegou aos torcedores espalhados pelo mundo?

A resposta revela muito sobre o papel central que a engenharia sempre exerceu na relação entre o torcedor e o jogo. Em 1930, as tecnologias de comunicação ainda estavam em estágio inicial de expansão.

O rádio havia se popularizado recentemente. A primeira transmissão comercial ocorreu em 1920, nos Estados Unidos, e no Brasil, em 1922. Já a televisão, desenvolvida em 1927, ainda não fazia parte da rotina da população, embora a BBC tenha realizado sua primeira transmissão comercial naquele mesmo ano.

Nesse contexto, grande parte dos torcedores acompanhava o desempenho de sua seleção por meio dos jornais impressos. A emoção do gol não era vivida em tempo real. As comemorações chegavam horas depois, nas manchetes e páginas da edição seguinte.

A era do rádio e uma nova experiência para o torcedor 

As edições seguintes, disputadas na Itália (1934) e na França (1938), com a Itália conquistando o título em ambas, encontraram um cenário de comunicação bastante diferente.

 O rádio já estava consolidado como a principal fonte de informação, levando a voz dos narradores diretamente às casas e aos espaços públicos. A televisão, ainda em preto e branco, começava a surgir como uma nova tecnologia de comunicação, mas permanecia distante da realidade da maior parte da população. 

1950 e o avanço das tecnologias de comunicação 

Após a interrupção causada pela Segunda Guerra Mundial, a Copa do Mundo voltou a ser realizada em 1950, no Brasil. Para a frustração dos brasileiros, o Uruguai conquistou o título em uma final que ficaria marcada na história como o Maracanazo.

Enquanto isso, a tecnologia seguia avançando em diferentes partes do mundo. Na Europa e nos Estados Unidos, a televisão ganhava espaço nas residências e evoluía em direção às transmissões em cores. Ao mesmo tempo, surgiam os primeiros computadores eletrônicos de grande porte. O ENIAC, considerado o primeiro computador, ocupava uma área inteira e pesava cerca de 30 toneladas, demonstrando o estágio inicial de uma revolução tecnológica que transformaria a sociedade nas décadas seguintes.

 

Satélites, comunicação e a expansão do futebol

Nas décadas de 1950 a 1970, o Brasil consolidou sua posição como uma das maiores potências do futebol mundial, conquistando três títulos da Copa do Mundo. Nesse período, atletas como Pelé e Mané Garrincha se tornaram referências do esporte e ajudaram a ampliar a projeção internacional do futebol brasileiro.

Fora dos gramados, a corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética impulsionava importantes avanços científicos e tecnológicos. Entre eles estava a Arpanet, considerada a precursora da internet e um dos marcos da comunicação digital moderna.

Um momento decisivo ocorreu em 1962, com o lançamento do satélite Telstar 1, que possibilitou a primeira transmissão televisiva transatlântica. Pela primeira vez, imagens podiam atravessar oceanos em tempo real, aproximando pessoas e eventos em uma escala inédita. A engenharia reduziu distâncias e transformou a forma de acompanhar grandes acontecimentos esportivos.

Em 1973, um engenheiro da Motorola realizou a primeira ligação por telefone celular da história. O equipamento pesava cerca de 1 kg e estava longe da praticidade dos dispositivos atuais, mas representou um passo importante para a evolução das telecomunicações e para a forma como nos conectamos ao mundo.

 

Os primeiros passos da sociedade conectada

O final da década de 1970 e o início dos anos 1980 marcaram a popularização dos computadores pessoais, com equipamentos como o Apple II e o IBM PC. Ao mesmo tempo, a televisão consolidava sua posição como principal meio de informação e entretenimento, tornando-se a principal janela para acompanhar os grandes eventos esportivos da época.

Foi por meio dela que milhões de brasileiros acompanharam as Copas do Mundo de 1982 e 1986, além das trajetórias de atletas como Zico e Sócrates, símbolos de uma geração que, apesar do talento em campo, não conquistou o título mundial.

Em 1989, Tim Berners-Lee desenvolveu a World Wide Web (WWW), criando as bases para que a internet se tornasse acessível a um público cada vez mais amplo. Poucos anos depois, em 1994, o Brasil conquistou seu quarto título mundial nos Estados Unidos, em um contexto no qual a internet começava, lentamente, a chegar às residências por meio de conexões discadas e de baixa velocidade.

Esse período também foi marcado por avanços importantes para o esporte. Em 1991, foi realizada a primeira edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino, um marco histórico para a ampliação da participação feminina e para o desenvolvimento da modalidade em escala global.

 

A mobilidade transforma a experiência do torcedor

Ao longo da década de 1990 e no início dos anos 2000, os telefones celulares passaram a integrar o cotidiano de milhões de pessoas. Com a evolução das redes móveis e a chegada das tecnologias de transmissão de dados, a internet começou a expandir sua presença para além dos computadores.

Em 2002, o Brasil conquistou o pentacampeonato em uma Copa do Mundo realizada no Japão e na Coreia do Sul. Apesar da distância geográfica e das diferenças de fuso horário, milhões de torcedores puderam acompanhar cada partida em tempo real.

Esse cenário só foi possível graças aos avanços da engenharia em áreas como telecomunicações, transmissão de dados e infraestrutura de redes. A tecnologia tornou possível acompanhar um evento realizado do outro lado do planeta com a mesma rapidez e emoção de quem estava presente no estádio.

 

A Copa na palma da mão

Do início dos anos 2000 até os dias atuais, as tecnologias de comunicação avançaram em ritmo acelerado. A expansão da banda larga viabilizou a transmissão de vídeos pela internet, os smartphones transformaram a forma como consumimos informação e entretenimento, e as plataformas de streaming passaram a ocupar um papel cada vez mais relevante na transmissão de grandes eventos.

A Copa do Mundo de 2026, sediada no Canadá, nos Estados Unidos e no México, reflete essa nova realidade. Hoje, torcedores podem acompanhar partidas em tempo real por diferentes dispositivos e plataformas, independentemente de onde estejam.

Ao mesmo tempo, novas tecnologias começam a ganhar espaço no universo esportivo. Entre elas, destaca-se a inteligência artificial, que já vem sendo utilizada em áreas como análise de desempenho, produção de conteúdo, transmissão de eventos e experiência do público.

 

Uma história de quase 100 anos de inovação

Ao longo de quase um século, o futebol e a forma de acompanhá-lo passaram por transformações profundas. O que começou com notícias publicadas nos jornais do dia seguinte evoluiu para transmissões globais via satélite, chegou aos dispositivos móveis por meio da internet e segue avançando com o apoio de tecnologias cada vez mais sofisticadas.

Mais do que um espetáculo esportivo, a Copa do Mundo também representa um dos maiores exemplos de como a engenharia transforma a maneira como as pessoas se conectam, compartilham experiências e vivenciam acontecimentos globais.

Ao olhar para essa trajetória, fica evidente que a evolução tecnológica continuará moldando o futuro do esporte. A paixão pelo futebol permanece, mas as formas de acompanhar, analisar e compartilhar cada momento seguem sendo reinventadas pela inovação.

 

Este conteúdo foi elaborado com a colaboração do Prof. Dr. Jeferson Rodrigues Cotrim, docente da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp.